Conduzir não é mais difícil que ser conduzido

Depois de algum tempo sem atualizar, chegou a mega tradução de outro texto pra deixar todo mundo mais antenado sobre problemáticas e assunto diversos do mundo do Lindy Hop! O último texto traduzido foi o que discutia a questão de gênero dentro dos papéis exercidos na dança; caso você não tenha lido, clique aqui para acessar.

Antes de começar o texto, gostaria de dizer que adaptações foram feitas conforme a língua portuguesa me pedia, assim como certas expressões foram mantidas em inglês, porque, assim, o público começa a se familiarizar com termos que vão escutar frequentemente durante aulas e/ou bailes, pois o Lindy Hop nasceu em Nova Iorque, né? Mas não se preocupe, os termos que foram mantidos em inglês são explicados ao final do texto, recomendo você dar uma olhadinha lá embaixo, caso não queira pausar sua leitura.
É importante ressaltar também que, na tradução, pronomes masculinos foram usados em ambas as descrições de papéis na dança. Já que a língua portuguesa tem a questão de gênero muito evidente, decidi deixar tudo igual na tentativa de não definir nada pra nenhum gênero, ok?

Enfim, o post de hoje discute uma problemática muito pertinente quando se trata não só de Lindy Hop, mas de danças em geral. Liderar é mais difícil do que seguir uma dança? Ser líder é mais difícil do que ser follower*? Qual é sua opinião?
Que comece a leitura!

“Ouço esta afirmação o tempo todo: “Conduzir é mais difícil que ser conduzido. ” Às vezes, de maneira escusatória, e outras, de maneira qualificadora: “…, mas só nos estágios iniciantes e intermediários…”, sempre ressaltando que conduzir requere, intrinsecamente, mais habilidade, mais concentração e mais atenção do que ser conduzido.

Isto poderia ser aceitável se fosse verdade, mas não é, e esta crença errônea distorce a natureza de conduzir e ser conduzido, além de guiar pessoas a efeitos negativos dentro da dança e da comunidade do Lindy Hop.

Então, na verdade, por que conduzir não é mais difícil que ser conduzido? Se conduzir não é mais difícil, por que parece ser? E o que podemos fazer para restaurar o equilíbrio?

 

Por que conduzir não é mais difícil que ser conduzido

Quando falamos sobre habilidades dentro da dança, tendemos a focar em quatro aspectos principais: vocabulário (movimentos), musicalidade, improviso e floorcraft**. Mas pensamos nestes aspectos, regularmente, em termos de condução da dança, ignorando as diferentes, mas igualmente desafiadoras habilidades que ser conduzido requerem. Enquanto líderes têm que aprender mais habilidades de iniciação, aqui estão três áreas em que followers têm de “fazer” mais:

  1. Followers têm que dominar mais vocabulário que líderes.

Porque o líder é responsável pela decisão de quais movimentos usar, e quando usá-los, ele tem de pensar sempre um passo à frente e ser decidido. Mas é exatamente esta responsabilidade pela tomada de decisão que lhe dá liberdade para escolher apenas movimentos com que se sinta confortável para performar. O follower, por outro lado, tem que estar preparado para ser conduzido dentro de uma extensa variedade de movimentos, uma somatória de todos os líderes com quem eles dançam, incluindo aqueles com que ainda não tiveram contato algum, seja em aulas ou em bailes sociais.

  1. Followers têm que atender a mais exigências de movimentos, equilíbrio e timing.

Devido a estrutura da maioria das danças, followers tendem a mover-se mais e executar mais pivoteios, giros e rodopios. Isto, quando colocado ao lado do fato de que eles estão complementando as ideias de movimentos de outra pessoa ao invés de gerar um vocabulário próprio, significa que seu equilíbrio e timing são postos à prova com muito mais frequência. Líderes que tentam aprender a serem followers tendem a ficar atônitos com a demanda física que este papel requere. O espírito, se não o significado literal de um ditado antigo, se aplica aqui: “Ginger Rogers fez tudo o que Fred Astaire fez, mas de trás pra frente e de salto alto.”

  1. Followers devem desenvolver mais habilidades de inibição e interpretação.

Followers devem equilibrar engenhosamente duas habilidades opostas: a de mover-se ativamente pelo espaço (manter-se em relação com a música) e a de inibir muitos movimentos, desejos e tendências que sejam de sua preferência pessoal. Geralmente, passamos essas ideias da seguinte maneira para followers: “Não pense.” Mas líderes que trocam de papel e absorvem a condução de uma dança aprendem rapidamente que isto requere uma escuta muito atenta, além de habilidades concretas. Followers devem interpretar e executar as ideias de outra pessoa rapidamente no tempo e espaço como se fossem deles mesmos.

 

Por que conduzir parece ser mais difícil

Nos primeiros estágios, conduzir realmente tem uma curva de aprendizado mais acentuada. Detectamos esta curva e logo concluímos que conduzir é essencialmente mais difícil. Mas há três razões influenciando esta curva de aprendizado que nada têm a ver com a inerente dificuldade de conduzir:

  1. Homens compõem uma probabilidade menor de ter experiências envolvendo dança e uma probabilidade maior de ter inseguranças quanto a esta atividade.

A razão primária que faz a linha de aprendizagem para líderes ser mais acentuada não é porque conduzir é intrinsecamente mais difícil, mas porque homens, num primeiro momento, são aqueles que conduzem uma dança. E muitos homens têm que superar algo que mulheres geralmente não enfrentam: uma vida de determinada cultura que desencorajou, ridicularizou e/ou proibiu a dança expressamente em nome da “masculinidade”. Inúmeras mensagens, explícitas ou implícitas, podem acumular uma série de reveses físicos, mentais e emocionais que fazem com que dançar seja mais desafiador, independente do papel que se exerça. Não é possível que isto seja generalizado, é claro. Mas é algo a ser considerado quando se trata de avaliar curvas de aprendizagem.

  1. Passamos a ideia de que, culturalmente, conduzir é mais importante, mais elaborado e mais difícil do que ser conduzido.

Em nossa cultura, liderar a dança é considerado importante e valioso, enquanto ser conduzido é considerado fraco e indesejável. Esta atitude cultural se insere de modo a criar esta realidade: durante aulas, damos foco aos líderes, algo que os leva a experienciar uma parcela desproporcional de preocupações e cuidados, assim como dos créditos (méritos por um movimento). Por outro lado, falamos para followers não pensarem ou se preocuparem, tirando deles o poder que podem proporcionar à parceria criada pela dança. Ambos estes aspectos levam a um senso de dificuldade para conduzir e de passividade (ou até mesmo preguiça) enquanto se é conduzido. Esta propensão cultural também contribui para o próximo item.

  1. Durante as aulas, desafiamos líderes quanto às suas habilidades primárias e não fazemos o mesmo com followers.

Porque homens geralmente chegam em desvantagem, e porque olhamos para a condução da dança como algo mais difícil e importante, ensinamos de um jeito que favorece a estes. Muitas, se não todas as aulas, focam em apenas um pedaço de movimentos, o que dá um gosto de como é o “mundo real” dos bailes para líderes, mas não para followers. A partir do momento em que followers não têm sido desafiados nas três áreas de habilidade identificadas acima, líderes parecem obter muito mais êxito durante as aulas do que na verdade performam em bailes, reforçando o falso conceito de que ser conduzido é mais fácil do que conduzir.

O RESULTADO?
Por causa destas três situações, liderar não parece ser somente mais difícil, como torna-se mais difícil. Nossa mentalidade cria a realidade que vemos todos os dias em aulas e em comunidades:

– Líderes iniciantes tornam-se tensos e estressados, enquanto followers iniciantes tornam-se passivos e subestimados.

– Parcerias em danças sociais tornam-se desequilibradas, gerando líderes hiperativos, no sentido de que fazem muitos movimentos (para si), e followers que respondem de maneira inadequada às conduções.

– Followers podem tender a parar de frequentar aulas e desenvolver sua dança até certo nível. Às vezes, esta tendência é neutralizada por conta do excesso de mulheres na comunidade, levando-as a estudar mais para que possam competir.

– Há uma pequena quantidade de followers que estudam a condução seriamente, mas pouquíssimos líderes que estudam ser conduzidos da mesma maneira, levando a uma disparidade de habilidades muito grande entre aqueles que exploram papéis opostos na dança.

– Padrões diferentes existem para líderes que ensinam solo (ou que são aqueles que conduzem a aula quando se está em dupla) comparados a followers que fazem o mesmo. Professores-líderes são muito mais valorizados do que professores-followers. Professores-líderes têm muito menos habilidades de followers do que o inverso, reforçando ainda mais a falta de atenção que o papel de follower tem.

 

Como tornar isto possível: equilibrando instruções entre os dois papéis

Professores têm uma grande influência em como seus alunos, e, consequentemente, a comunidade de dança, entendem e experienciam liderança e condução. Aqui estão seis meios que professores podem usar para encorajar uma maior e mais completa “apreciação” destes dois papéis:

  1. Igualar o feedback para ambos os papéis.

Preste atenção na quantidade e na ordem do feedback que você dá em aula: dê o mesmo para quem conduz e para quem é conduzido, e não dê feedback sempre aos líderes primeiro, já que a ordem implica mais importância e prioridade. Frequentemente, pensamos que líderes precisam de instruções primeiro (até porque são eles que iniciam os movimentos), mas o professor de Lindy Hop Nathan Bugh já questionou esta lógica: “Quando se trata de aprender e ensinar movimentos de follower ou líder, a técnica que envolve o follower tem uma prioridade muito maior do que a do líder. Suas habilidades, sua atenção, força, equilíbrio, uso do espaço, etc. são elementos-chave para o seu próprio desenvolvimento E também para o do líder. O follower é o começo da lógica que existe na dança. Em aula, followers encorajam líderes a aprender. Líderes avaliam seu progresso de acordo com os resultados que seus parceiros incorporam/expressam. Followers são o foco do processo de ambos os papéis e estas pessoas têm de ser conduzidas antes mesmo de serem lideradas.”

  1. Igualar verbos passivos e ativos para ambos os papéis.

Balancear o foco habitual ou tendência de cada papel ao usar mais verbos ativos para followers e passivos para líderes. Em outras palavras, enfatizar o aspecto de liderança que ser follower exige e o aspecto de ser conduzido que ser líder exige. Quando equilibramos a linguagem desta maneira, nota-se uma enorme diferença na conexão entre parceiros. Alguns exemplos? Em minhas aulas, frequentemente instruo líderes a “seguir o follower conforme o movimento”. Numa aula de tango que tive com Momo Smitt e Courtney Moore, a Courtney encorajou followers a sentir o movimento que era dado por líderes e, então, “levá-los” junto.

  1. Evitar ensinar padrões invariáveis que não desafiam followers.

Como mencionado anteriormente, em muitas aulas são ensinados apenas certos vocabulários (movimentos) de determinada maneira, o que não desafia followers a inibir, interpretar ou responder a tempos e balanços diferentes durante a dança. Ensinar variações simples e viáveis de um movimento, seu tempo ou parâmetros de espaço que este usa é essencial para followers desenvolverem habilidades quanto à inibição e interpretação ao invés de antecipar o que será feito. É também uma maneira mais efetiva de ensinar líderes a realmente conduzir uma dança. Enquadrar variações no mesmo movimento como um desafio para followers pode tirar a pressão de líderes e deixar followers mais ativos.

  1. Usar exercícios em que followers determinem o timing ou movimento.

Num de seus workshops de tango para iniciantes, Homer e Cristina Ladas fizeram um exercício em que ensinaram followers a cruzar seus pés neles mesmos, e então fizeram com que decidissem quando fazer isto com o seu parceiro como se fosse um “erro” deliberado. Líderes tiveram que sentir quando este movimento acontecia e se ajustar para acompanhar followers conforme este passo começava e terminava. Quando comecei a usar este simples exercício antes de ensinar o full cross*** como um movimento “condução-e-conduzido”, notei que o movimento era aprendido com mais rapidez e efetividade por pessoas performando ambos os papéis. Líderes ouviam seus followers, liderando este movimento de maneira mais orgânica do que mecânica. Followers foram muito mais ativos ao estabelecer seu equilíbrio e timing dentro da estrutura dada pelo líder.

Exercícios assim enfatizam o aspecto de ser conduzido que liderar exige e o aspecto de liderança que ser follower exige de um modo “muito” físico. Eles também equilibram a responsabilidade e habilidades requeridas para os dois papéis, reduzindo o estresse em líderes e empoderando followers, enquanto as habilidades de ambos se desenvolvem mais efetivamente.

  1. Se atentar a afirmações comuns sobre poder e responsabilidade.

Apesar de não serem verdade, muitas afirmações comuns que ouvimos em aula ou na pista de dança contribuem para ideias errôneas sobre a dificuldade relativa e importância de ambos os papéis:

  • “A culpa é sempre do líder” pode ser uma afirmação cavalheira, mas implica que o líder está sempre no controle e que o follower não tem responsabilidade ou poder.
  • “Não pense, apenas siga” é uma afirmação confusa e depreciativa, encoraja followers a serem passivos e minimizadores no nível de habilidade necessária para representar este papel de maneira adequada. Poderíamos dizer “Não pense, apenas lidere” igualmente, já que dançarinos em ambos os papéis precisam desenvolver as habilidades de sentir e mover-se ao invés de pensar demais. Mas, para ambos, o melhor a fazer é enfatizar maneiras específicas de desenvolver as habilidades de sentir e mover-se ao invés de expedir instruções vagas que são mais confusas que elucidativas.
  • “Líderes são responsáveis pelo floorcraft” poderia ser especificado mais pontualmente como “Líderes são mais conscientemente responsáveis pelo floorcraft”, enquanto as habilidades de followers que envolvem inibição, interpretação e de, precisamente, controlar o timing, equilíbrio, tamanho e forma de seus movimentos são fatores essenciais para que o casal faça bom uso do espaço enquanto dança. No entanto, enquanto cada colocação poderia ser tecnicamente verdade, é melhor focar em habilidades específicas ao invés de fazer afirmações que não têm valor prático e servem apenas para reforçar estereótipos prejudiciais sobre cada papel.
  1. Exigir mais habilidades followers de professores-líderes.

Há um duplo padrão quando se trata de ensinar ambos os papéis na dança: líderes com pouca habilidade de serem conduzidos são completamente aceitos, enquanto followers com um nível intermediário-avançado de condução sentem que não são levados tão a sério quanto professores solo (que ensinam sem um parceiro) ou aqueles que ensinam em pares. Followers que ensinam geralmente sentem um grande peso de responsabilidade para estudar o papel da condução, e isto não é algo ruim. Mas líderes que ensinam precisam colaborar e assumir mais responsabilidade quanto aos seus estudos e desenvolvimento de habilidade quanto ao papel de follower. Alunos também precisam repensar os padrões duplos subconscientes que podem carregar, o que pode negar oportunidades para professores de um gênero em particular ou papel (na dança) que pode ser igualmente efetivo.”
Tradução por Juliana Santana Rodrigues.

Como foi falado no começo, seguem aqui as explicações de estrelinhas que apareceram no meio da sua leitura:
*Follower: é uma forma de denominar a pessoa que é conduzida durante uma dança (líder é a pessoa que conduz, como essa palavra é exatamente a mesma em inglês e português, decidi usar em português, assim o entendimento fica (provavelmente) melhor).
**Floorcraft: isto é algo que não é uma coisa, mas acontece quando o dançarino utiliza o espaço sem interromper a própria dança ou a dança dos demais participantes. É uma ação de que o dançarino faz uso pra trabalhar o ambiente de forma eficaz, como um todo.
***Full cross: simples! É o nome de um movimento de dança.

E aí, o que você achou?
Concorda?
Discorda?
Este é um assunto que pode render horas de debate, não? O intuito é esse, deixe sua opinião, problematize, contribua (!), pois essa discussão é muito pertinente, não só em assuntos envolvendo dança. Valorizo muito quem entra em contato comigo, mas vocês podem deixar suas opiniões nos comentários também, elas são importantes e merecem ser ouvidas por mais pessoas!

Fonte 1 • Fonte 2

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: